As verdades
8 de novembro de 2009
Se não fossem blogs, como o da Ana Célia Pinheiro, jornalista paraense, ficaríamos somente no discurso oficial e nas "verdades" dos jornalões. Quando ler um jornal lembre-se das forças ocultas, dizia sempre um professor que tive no MBA. Ele coleciona manchetes dos jornalões.
Olha o trabalho que a Ana está fazendo:
Jornalões forçam a barra
O pedido de prisão de Charles Trocate, do MST, nada tem a ver com a destruição da fazenda Maria Bonita.
Ao contrário do que dizem os jornais de hoje, tal pedido data do início do ano, segundo me esclareceu, ontem, a Polícia Civil.
Volto mais tarde.
***
Polícia desmente Faepa: não há indícios de culpa do MST
O delegado do Interior, Miguel Cunha, afirmou ao blog que não existe qualquer relatório da Polícia Civil sobre a destruição da fazenda Maria Bonita, em Eldorado dos Carajás, e que também não há indícios da participação do MST no episódio.
Miguel Cunha se encontra em Marabá e o blog conversou com ele por telefone, devido a uma nota da Assessoria de Comunicação da Faepa, na qual se afirma a existência de um “relatório preliminar” da Polícia Civil, que teria responsabilizado o MST por esses fatos.
“Não há relatório nenhum. O que existe é uma perícia do Renato Chaves, que esteve na fazenda e constatou os danos. Mas, isso não confirma a autoria. A perícia apenas comprova a materialidade do delito, ou seja, que o fato ocorreu. Agora, se o dano foi causado por A, B ou C só as investigações dirão”, afirmou Miguel Cunha.
Descontrole
89% da madeira do Pará vem de áreas ilegal, diz estudo
FSP - 08.11.2009
O desmatamento sem autorização legal atinge 89% da área que sofre exploração madeireira no Estado do Pará, de acordo com estudo da ONG Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). É a primeira vez que se faz uma estimativa direta da retirada de madeira ilegal na Amazônia. O sistema estadual que mede a produção de madeira calculava a parte ilegal em 10%.
Manejo é opção para construir economia de baixo carbono
Diretor do Instituto Floresta Tropical, organização parceira do WWF-Brasil, afirma que Amazônia não tem vocação agrícola e que o manejo assegura conservação da floresta e renda para populações locais
Bruno Taitson, do WWF, de Paragominas (PA)
A utilização dos recursos naturais da Amazônia por meio do manejo florestal é mais vantajosa que as atividades tradicionais de agricultura, pecuária e exploração madeireira, tanto do ponto de vista da conservação da floresta como em relação aos ganhos econômicos. A constatação é de estudos realizados pelo Instituto Floresta Tropical (IFT), organização parceira do WWF-Brasil.
O IFT comparou resultados da exploração madeireira feita de forma convencional com o modelo do manejo florestal. As áreas manejadas provocam danos 50% menores às árvores remanescentes, o nível de desperdício de madeira é 67% menor, estradas, trilhas e pátios abertos na floresta ocupam áreas 50% menores e, por fim, os custos são 12% inferiores quando se opta pelo manejo florestal em lugar dos métodos usuais e predatórios de exploração.
De acordo com Marco Lentini, diretor-adjunto do IFT, os números demonstram que, em todos os aspectos, o manejo florestal é mais vantajoso: para o meio ambiente, para as comunidades locais e para o empresário que explora a área. “Em igualdade de condições, o manejo é bem mais interessante, inclusive do ponto de vista econômico”, resume.
Marco Lentini acrescenta que a Amazônia, devido ao solo, ao excesso de umidade, aos problemas de infraestrutura e consequentes dificuldades de acesso, não tem vocação para atividades agropecuárias. “O manejo é a única alternativa para conservar a Amazônia e garantir a inclusão social de milhões de pessoas que vivem da floresta”, sentencia.
Ele lembra também que, atualmente, o mundo demanda uma economia de baixo carbono, especialmente para conter os efeitos das mudanças climáticas, o que acaba desqualificando as atividades de agricultura e pecuária como opções viáveis para o desenvolvimento da região.
Questionado sobre alegações de que a pecuária ainda é mais rentável na região e que, portanto, seria difícil convencer os moradores da floresta a praticar o manejo, o diretor do IFT argumenta que a comparação não se sustenta. “Durante décadas o Brasil subsidiou e financiou com recursos públicos a agropecuária na Amazônia. É preciso também investir no manejo e capacitar mão-de-obra para que as duas atividades passem a competir de igual para igual. Desta forma, não há dúvidas de que o manejo é bem mais atrativo”, analisa.
Marco Lentini, que é engenheiro florestal e mestre em economia florestal, acrescenta que o Brasil precisa se preparar para uma cultura florestal. Na Suécia, por exemplo, o tempo que a floresta precisa para se regenerar é de cerca de 150 anos. Isso significa que, se alguém fizer o manejo madeireiro hoje em determinada área, provavelmente apenas os bisnetos poderão voltar para retirar madeira do mesmo local. Na Amazônia, devido às características naturais, o tempo necessário é de aproximadamente 35 anos. “Isso representa uma substancial vantagem competitiva para o Brasil”, explica.
Estudos do IFT demonstram que, para a Amazônia se tornar líder mundial na produção de madeira tropical manejada, seria necessária a qualificação de pelo menos 30 mil pessoas no longo prazo. “Não estamos nem perto disso, o governo precisa dar mais atenção a esse tema. Além disso, parcerias como as que existem entre IFT, WWF-Brasil e outras organizações, são fundamentais para a capacitação de profissionais para o manejo florestal na Amazônia”, conclui.
Em outubro deste ano, o IFT e o WWF-Brasil, em parceria com o Serviço Florestal dos Estados Unidos, realizou no Pará um curso para capacitar técnicos, engenheiros e agentes de governo na construção sustentável de estradas florestais na Amazônia.
Marcadores: Amazônia, Meio Ambiente, Urtiga
Para além do PIB e do IDH
5 de novembro de 2009
Por José Eli da Veiga em 27/10/2009
Fonte: Valor Econômico
Quase toda a capacidade cerebral dos seres humanos é usada para continuar crendo no que já acostumaram a aceitar como verdade. Ínfima é a disponibilidade para se colocar em dúvida alguma convicção. Pior: a chance é nula se a novidade esbarrar em ideias repisadas como se fossem insuspeitas conclusões científicas. Detesta-se qualquer pensamento que abale algum fundamento aprendido na escola, principalmente nos grandes manuais usados no ensino superior. Por isso, reflexões que rompem visões convencionais estão fadadas à rejeição do silêncio.
Só o fenômeno descrito no parágrafo acima pode explicar o desdém com que está sendo tratada a decisiva contribuição da CMEPSP: comissão que ficou mais conhecida pela trinca de nomes de seus três principais coordenadores - Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi - do que por sua missão de rever a "mensuração do desempenho econômico e do progresso social". Há mais de um mês está disponível o relatório final em www.stiglitz-sen-fitoussi.fr. Seus produtos anteriores foram comentados nesta coluna em quatro textos que podem ser baixados de www.zeeli.pro.br: 15/abr/08, 10/jun/08, 30/set/08 e 07/jul/09.
Das quinze recomendações do relatório final, as cinco que se referem especificamente à superação do tosco PIB não poderiam ser mais incisivas: 1) passar a olhar para renda e consumo em vez de olhar para a produção; 2) considerar renda e consumo em conjunção com a riqueza; 3) enfatizar a perspectiva domiciliar; 4) dar mais proeminência à distribuição de renda, de consumo e de riqueza; 5) ampliar as medidas de renda para atividades não-mercantis.
Trata-se de um claro reconhecimento de que está inteiramente obsoleto o viés produtivista que orientou a montagem do atual sistema de contabilidades nacionais. No contexto de meados do século passado, a maior preocupação dos técnicos que o conceberam só poderia ter sido mesmo o aumento da produção, como está muito bem documentado no melhor livro sobre o tema: "A History of National Accounting", de André Vanoli (IOS Press: 2005; originalmente em francês, editora La Découverte: Paris, 2002). Porém, passados uns 60 anos, chega a ser assustador que o desempenho econômico das nações continue a ser medido quase que exclusivamente por aumentos da produção mercantil interna e bruta.
A produção pode aumentar enquanto a renda diminui e vice-versa, desde que se leve em consideração a depreciação, os fluxos de renda para dentro e para fora do país, e as diferenças entre os preços de produção e de consumo. Além disso, mesmo a renda e o consumo não serão bons indicadores de desempenho se não estiverem cotejados à riqueza. Para que se tenha um verdadeiro balanço da economia nacional, é preciso que ela imite a contabilidade das empresas, pois são cruciais as contas de patrimônio e as de endividamento.
Segundo a CMEPSP, a melhor maneira de superar as limitações da vetusta contabilidade que leva ao PIB é adotar o que chama de "perspectiva domiciliar". Em países da OCDE que já fazem esses cálculos, ficou bem claro que a renda domiciliar real aumenta menos que o PIB. É preciso levar em conta os pagamentos de tributos que vão para o governo, os benefícios sociais alocados pelo governo, e os pagamentos de juros que os domicílios fazem às corporações financeiras. Também é crucial que não sejam ignorados os serviços não-monetários prestados pelo governo às famílias, principalmente pelos sistemas de saúde e de educação.
Ainda sobre o PIB, a Comissão também preconiza mais audácia no sentido de que a mensuração do desempenho econômico venha a incluir atividades não-mercantis, principalmente as de serviços pessoais decorrentes de relações de parentesco. Sugere que o melhor ponto de partida poderá ser a realização de estimativas sobre o uso do tempo pelas pessoas.
Além de medir direito o desempenho econômico, também será necessário avaliar a qualidade de vida sem cair na ambiguidade do IDH: Índice de Desenvolvimento Humano. Neste caso, a proposta que acabou vingando é tão complexa que estará fora do alcance de países que não tiverem sofisticados sistemas públicos de estatística. Para começar, a Comissão gostaria que todo o acúmulo já existente sobre avaliações subjetivas de bem-estar fosse incorporado em avaliações de qualidade de vida. E isso, mesmo depois de apontar quais são as questões ainda não resolvidas pelas pesquisas voltadas à aferição de satisfação com a vida e de experiências hedônicas. A ideia é que as agências oficiais de estatística ao menos comecem a levá-las a sério, incluindo em seus levantamentos as questões que já se mostraram válidas em "surveys" não-oficiais e menos abrangentes.
Outra grande ênfase do relatório está na terceira dimensão: a da absoluta necessidade de que os aspectos propriamente ambientais da sustentabilidade sejam acompanhados pelo uso de indicadores físicos bem escolhidos. A rigor, isso poderia ser interpretado como uma adesão à abordagem da Pegada Ecológica. Porém, o relatório sintetiza muito bem as várias críticas já feitas à metodologia da pegada, destacando cinco problemas: os que se referem a terras utilizadas pela agropecuária, a terrenos destinados à construção, a recursos pesqueiros e florestais e à maneira de calcular a pegada carbono, que já constitui mais de 50% da pegada ecológica. E são ainda mais incisivas e meticulosas as críticas aos demais indicadores de sustentabilidade já propostos.
Resumindo, o recado é claro: buscar bons indicadores não-monetários da aproximação de níveis perigosos de danos ambientais, como, por exemplo, os que estão associados à mudança climática. É possível deduzir, então, que se as intensidades-carbono das economias viessem a ser bem calculadas, poderiam ser os indicadores das contribuições nacionais à insustentabilidade global. E, melhor ainda, se surgissem medidas parecidas para o comprometimento dos recursos hídricos e para a erosão de biodiversidade. Esse trio seria suficiente para mostrar a que distância se está da sustentabilidade.
José Eli da Veiga é professor titular da Faculdade de Economia (FEA) e orientador do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo, escreve mensalmente às terças. Página web: www.zeeli.pro.br.
Marcadores: Urtiga
Uma nova arquitetura mundial
Por George Soros em 05/11/2009
Fonte: Valor Econômico
O mundo enfrenta hoje outra escolha desoladora entre duas formas diferentes de organização
Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim e do colapso do comunismo, o mundo está enfrentando outra escolha desoladora entre duas formas fundamentalmente diferentes de organização: capitalismo internacional e capitalismo estatal. A primeira, representada pelos Estados Unidos, faliu, e a última, representada pela China, está em ascensão. Seguir a trilha da menor resistência levará à desintegração gradual do sistema financeiro internacional. Um novo sistema multilateral baseado em princípios mais sólidos precisa ser inventado.
Apesar da dificuldade de obter cooperação internacional em torno da reforma reguladora em etapas, ela pode ser conseguida num grande pacto que reorganize todo o sistema financeiro. Uma nova conferência de Bretton Woods, como aquela que estabeleceu a arquitetura financeira internacional pós-Segunda Guerra Mundial, é necessária para estabelecer novas regras internacionais, incluindo o tratamento de instituições financeiras que sejam grandes demais para falir e o papel dos controles de capital. Ela também teria de reformular o Fundo Monetário Internacional (FMI), para refletir melhor a hierarquia social predominante entre os Estados e rever seus métodos de atuação.
Além disso, um novo Bretton Woods teria de reformar o sistema monetário. A ordem do pós-guerra, que tornou os EUA um país mais igual que os demais, gerou desequilíbrios perigosos. O dólar já não desfruta a confiança e a certeza de antigamente, porém nenhuma outra moeda pode assumir o seu lugar.
Os EUA não deveriam se esquivar do uso mais disseminado dos Direitos Especiais de Saque (SDRs, na sigla em inglês) do FMI. Considerando que os SDR são denominados em várias moedas nacionais, nenhuma moeda isolada poderia desfrutar uma vantagem injusta.
A gama de moedas incluídas nos SDR precisaria ser ampliada, e algumas das moedas recém-agregadas, incluindo o renmimbi, podem não ser plenamente conversíveis. Isso, por sua vez, permitiria à comunidade internacional pressionar a China para que abandone sua âncora cambial ante o dólar e seria a melhor forma de reduzir desequilíbrios internacionais. Além disso, o dólar continuaria sendo a moeda de reserva preferida, contanto que seja administrada de forma prudente.
Uma grande vantagem dos SDR é que eles permitem a criação internacional de moeda corrente, que é especialmente útil em tempos como o atual. O dinheiro poderia ser direcionado aonde fosse mais necessário, ao contrário do que está acontecendo atualmente. Um mecanismo que permita a países ricos que não necessitam de reservas adicionais transferir suas verbas aos que necessitarem estaria prontamente disponível, usando as reservas de ouro do FMI.
Reorganizar a ordem mundial exigirá se estender para além do sistema financeiro e envolver as Nações Unidas, especialmente a filiação ao Conselho de Segurança. Esse processo precisa ser iniciado pelos EUA, mas China e outros países em desenvolvimento deveriam participar como iguais. Eles são membros hesitantes das instituições de Bretton Woods, que são dominadas por países que já não são dominantes. As potências ascendentes devem estar presentes na criação desse novo sistema para assegurar que sejam adeptos atuantes.
O sistema não poderá sobreviver na sua forma presente, e os EUA têm mais a perder em não se posicionarem na vanguarda da sua reforma. Os EUA ainda estão numa posição de liderar o mundo, mas, sem uma liderança previdente, sua posição relativa provavelmente continuará erodindo. O país não consegue mais impor a sua vontade sobre os demais, como tentou fazer a administração de George W. Bush, mas ele poderá liderar um esforço conjunto para envolver o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento, restabelecendo, a liderança americana de forma aceitável.
A alternativa é assustadora, pois uma potência em declínio que vem perdendo seu predomínio econômico e político, mas que ainda preserva a supremacia militar constitui uma mistura perigosa. Costumávamos ser tranquilizados pela generalização de que países democráticos buscam a paz. Após a era Bush, essa regra não se aplica mais, se é que já se aplicou.
Na verdade, a democracia está envolta em graves problemas na América. A crise financeira causou adversidade a uma população que não gosta de enfrentar realidade dura. O presidente Barack Obama acionou o "multiplicador de confiança" e alega ter contido a recessão. Se houver uma "recaída" da recessão, porém, os americanos ficarão suscetíveis a todos os tipos de alarmismo e demagogia populista. Se Obama fracassar, a próxima administração ficará seriamente tentada a criar alguma distração dos problemas do país - a um grande risco para o mundo.
Obama tem a visão certa. Ele crê em cooperação internacional, no lugar da filosofia da lei do mais forte da era Bush-Cheney. O aparecimento do G-20 como principal instância de cooperação internacional e do processo de avaliação por especialistas, acertado em Pittsburgh, são passos na direção certa.
O que está faltando, porém, é um reconhecimento generalizado de que o sistema está falido e precisa ser reinventado. Afinal, o sistema financeiro não desmoronou de todo, e o governo Obama tomou uma decisão consciente de reviver os bancos com subsídios dissimulados, em vez de recapitalizá-los compulsoriamente. Essas instituições que sobreviveram deterão uma posição de mercado mais sólida do que nunca, e resistirão a uma reestruturação sistemática.
A liderança da China precisa ser ainda mais previdente que Obama. A China está substituindo o consumidor americano como motor da economia mundial. Como é um motor pequeno, a economia mundial crescerá em ritmo mais lento, mas a influência crescerá rapidamente.
Por enquanto, o público chinês está disposto a subordinar sua liberdade individual à estabilidade política e ao progresso econômico. Mas isso pode não continuar indefinidamente - e o resto do mundo jamais subordinará a sua liberdade à prosperidade do Estado chinês.
À medida que a China se tornar uma líder mundial, ela precisará se transformar numa sociedade aberta que o resto do mundo esteja disposto a aceitar como uma líder mundial. Da forma como estão as relações de poderio militar, a China não tem nenhuma alternativa ao desenvolvimento harmonioso e pacífico. Na verdade, o futuro do mundo depende disso.
George Soros é presidente do conselho do Soros Fund Management e da Open Society Institute. Seu livro mais recente é "The Crash of 2008". Copyright: Project Syndicate, 2009. www.project-syndicate.org.
Marcadores: Urtiga
Marinando por aí...
4 de novembro de 2009
Excelente análise do Träsel sobre a nova inserção do PT no mundo virtual através da sua nova página, do uso do Twitter e demais mídias sociais.
O PT é provavelmente o partido que mais se beneficiará da nova legislação, justamente porque conta historicamente com o apoio espontâneo de militantes — embora o pioneiro no uso de mídias sociais no portal oficial seja o Democratas. As mídias sociais são um excelente instrumento para agregar e direcionar forças sociais, mas ainda está por surgir um bom exemplo de criação de movimento e apoio político a partir desse tipo de ferramenta. Não custa lembrar que Obama elegeu-se num contexto de grande repúdio a George W. Bush e ao Partido Republicano — mais ou menos a mesma situação de Lula e FHC em 2002.
Marcadores: Blogs
Chamaram Verequete, o Rei do Carimbó
3 de novembro de 2009
Chama Verequete, ê, ê, ê, ê / Chama Verequete, ô, ô, ô, ô
Chama Verequete, ruuuum / Chama Verequete...
Chama Verequete, oh! Verê / Oi, chama Verequete, oh! Verê
Ogum balailê, pelejar, pelejar / Ogum, Ogum, tatára com Deus
Guerreiro Ogum, tatára com Deus / Mamãe Ogum, tatára com Deus
Aruanda, aruanda, aruanda, aruanda ê / Mandei fazer meu terreiro
bem na beirinha do mar / mandei fazer meu terreiro
só pra mim brincar
Para quem é paraense ou gosta de carimbó, o cantor/compositor Verequete, falecido hoje, foi sem dúvida o melhor de todos. Pinduca não dá nem para o cheiro, como dizemos por lá. Minhas lembranças de moleque são marcadas pelo ritmo de sua principal composição, "Chama Verequete", ao ponto de ao escultá-la vir a mente o sabor do tacacá, as quadrilhas, a areia no pé descalço, as primeiras namoradas, o respeito pela cultura paraense, o julho quente.
Era o cara.
"Chama Verequete"
Chama Verequete, ê, ê, ê, ê / Chama Verequete, ô, ô, ô, ô
Chama Verequete, ruuuum / Chama Verequete...
Chama Verequete, oh! Verê / Oi, chama Verequete, oh! Verê
Ogum balailê, pelejar, pelejar / Ogum, Ogum, tatára com Deus
Guerreiro Ogum, tatára com Deus / Mamãe Ogum, tatára com Deus
Aruanda, aruanda, aruanda, aruanda ê / Mandei fazer meu terreiro
bem na beirinha do mar / mandei fazer meu terreiro
só pra mim brincar
Pará vai se industrializar?
O Pará é o eixo de uma luta pelo controle da maior empresa privada nacional, a Vale do Rio Doce. De um lado, o presidente Lula. De outro, o executivo Roger Agnelli. O empresário permaneceu no seu posto, mas seu poder encurtou. Das negociações pode resultar a primeira grande siderúrgica paraense.
Março de 2010 pode vir a ser uma data histórica para o Pará. É quando o governo federal pretende inaugurar as eclusas da hidrelétrica de Tucuruí, uma das maiores em todo o mundo. A obra se arrasta há três décadas e já consumiu mais de um bilhão de reais, 80% aplicados durante os dois mandatos do presidente Lula. Todos os últimos presidentes deixaram de cumprir a promessa feita de restabelecer a navegação no rio Tocantins. Ela foi interrompida na segunda metade da década de 70, 350 quilômetros a sudoeste de Belém, para a construção da quarta maior hidrelétrica do mundo (a maior de todas inteiramente dentro do território nacional, porque Itaipu é binacional).
Tucuruí começou a operar em 1984, depois de nove anos de obras. As eclusas continuaram na promessa, que, finalmente, será resgatada. Ela permitirá a transposição da enorme parede de concreto da usina de energia, com 70 metros de altura, através de dois “elevadores” hidráulicos e um canal intermediário, com sete quilômetros de extensão. Mas não transformará de imediato em hidrovia para carga de maior porte o Tocantins, o 25º maior rio do planeta, com 2.200 quilômetros de extensão. Logo a 43 quilômetros a montante do reservatório de Tucuruí há uma barreira, o pedral Lourenção, que precisará ser derrocado; 52 quilômetros antes de Marabá, o problema são os bancos de areia do Tauri, que exigem dragagem.
Os orçamentos desses dois serviços são medidos em algumas centenas de milhões de reais, mas sem eles está ameaçada a viabilidade de outro evento também previsto para março do próximo ano: o início da construção da Aços Laminados do Pará, a primeira siderúrgica de grande porte, para verticalizar a produção da mina de Carajás, que tem o minério de ferro mais rico da Terra. A Vale do Rio Doce, a única responsável pela oferta desse minério no Pará, a maior vendedora do produto no mercado internacional e a segunda mineradora mundial, também está à frente da Alpa. Embora tenha lançado o empreendimento em agosto do ano passado, sua implantação ainda não é dada como garantida.
Uma condicionante fundamental é a plena navegabilidade do Tocantins, de Marabá ao porto de Vila do Conde, por uma extensão de mais de 500 quilômetros, com garantia de poder absorver sem interrupções uma grande movimentação de carga. A Alpa deverá importar carvão mineral e exportar 2,5 milhões de toneladas anuais de placas de aço, dentre outras matérias primas e insumos que movimentará. As eclusas, com capacidade para 30 milhões de toneladas nas duas direções, têm condições de absorver a demanda projetada.
Nas condições atuais, a navegação acima da barragem apresentaria dificuldades para a operação da siderúrgica. E a ferrovia de Carajás, também sob o controle exclusivo da Vale, que é a via única de transporte pesado de hoje, estaria com sua capacidade comprometida pela elevação na produção de minério de ferro (para 130 milhões de toneladas anuais) e outros produtos, como manganês, ferro gusa, níquel e cobre, além de carga geral e passageiros. O governo terá que prosseguir os investimentos na hidrovia Tocantins/Araguaia, vencendo resistências internas e a carência de recursos financeiros, para que as eclusas não se tornem obra parcial, limitada.
Mesmo que sejam plenamente realizadas, as derrocagens e dragagens não serão suficientes para permitir que o Pará ingresse na era da grande siderurgia, realizando os sonhos de muitos anos de sair da maldição da especialização na produção de matérias primas. A Vale ainda não parece uma entusiasta do projeto de uma usina de placas de aço no interior do Estado, longe do litoral e fora do pólo econômico principal do país.
Quando a definição da localização dessa usina esquentou, alguns anos atrás, a empresa preferiu instalar a planta industrial na ilha de São Luís, mas parece ter absorvido sem traumas a desistência do sócio estrangeiro e a reação das representações da sociedade civil aos impactos ecológicos do empreendimento na capital maranhense. O projeto saiu de pauta até o recente anúncio da Alpa. Passados 14 meses, porém, a Vale não conseguiu sensibilizar nenhum parceiro, nacional ou internacional, para aplicar na usina de transformação ao lado da mina, a 900 quilômetros do litoral, com investimento de 3,7 bilhões de dólares (ou 6,6 bilhões de reais).
Não é mesmo um negócio atrativo ou há um jogo de interesses ocultos? A Vale se dispôs a elucidar o enigma patrocinando a visita de uma caravana paraense à Cia. Siderúrgica do Atlântico, que está implantando no Rio de Janeiro. É a primeira usina de grande porte que surge no Brasil desde meados da década de 80. Será a maior siderúrgica do país, com cinco milhões de toneladas de placas de aço, o dobro da capacidade da usina paraense.
O principal acionista é a multinacional alemã ThyssenKrupp, mas a Vale aplicou no mês passado o equivalente a 965 milhões de euros para elevar sua participação - de 10% para quase 27% - no capital da CSA. Foi uma clara indicação de que a exigência partiu do sócio estrangeiro (a Vale teria preferido poupar seu capital, não desagradar outros clientes de minério de ferro que concorrem com a Thyssen e se limitar a estimular o consumo de minério). Mesmo assim, não faltam atrativos ao empreendimento, que deverá entrar em atividade na primeira metade do próximo ano.
Já a Alpa está prevista para funcionar em 2013, quando também serão ativadas a usina de Pecém, no Ceará (com capacidade podendo ir de 3 milhões para 6 milhões de toneladas anuais) e de Ubá, no Espírito do Santo, que deverá ser do tamanho da planta da CSA, com 5 milhões de toneladas. Em conjunto, essas quatro novas fábricas, com investimento de R$ 31,2 bilhões, deverão produzir 18,5 milhões de toneladas, acrescentando 50% à atual produção siderúrgica nacional. O Brasil deixaria de ser apenas um vendedor de minério de ferro, tornando-se um importante pólo siderúrgico.
O presidente Lula deveria estar satisfeito com essa perspectiva, mas ele andou resmungando e maquinando intensamente contra a Vale. Chegou a se movimentar para tirar Roger Agnelli da presidência da ex-estatal, cargo que ocupa desde 2001. Nesse período, o executivo, oriundo do sistema financeiro, transformou a Vale numa empresa com valor de mercado de R$ 190 bilhões, a maior empresa privada do continente e a maior exportadora brasileira, das poucas de classe mundial, capaz de competir com vantagens na arena internacional.
Nenhuma outra empresa privada tem investido mais do que a Vale, tratou de proclamar uma massiva campanha publicitária desencadeada empresa na imprensa de todo país. Só neste ano serão R$ 18 bilhões, com a criação de 100 mil empregos. No sudeste do Pará chegarão a mais de US$ 10 bilhões (R$ 18 bilhões) até 2015. São números colossais, nem por isso insuscetíveis a questionamentos. Pelo contrário: justamente essa grandeza prejudica uma percepção mais profunda do significado das estratégias adotadas pela atual direção da Vale, que procura convencer - e impressionar - a opinião pública pelo seu gigantismo.
A irritação de Lula, que evoluiu da antiga fraternidade para uma ira pessoal, porém, se deveu a atos menores de Roger Agnelli. A pretexto da crise internacional, que era real, mas não incontornável ou insuportável, ele demitiu de imediato 1,3 mil funcionários e cortou R$ 3 bilhões em investimentos, os de maiores efeitos no Pará. Entrou na contramão do espírito e da retórica do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a principal arma de Lula para favorecer sua candidata à sucessão, a ministra Dilma Rousseff.
Independentemente da viabilidade intrínseca do empreendimento, o presidente exigiu que a Alpa fosse implantada, tanto para quebrar o círculo vicioso que freia a verticalização do minério de ferro, como para oferecer ao PT do Pará uma ferramenta estupenda para a problemática campanha eleitoral de 2010. Talvez para fazer sentir que não está totalmente destituído de força (nem perdeu a postura arrogante, que não consegue disfarçar em algumas situações), Agnelli convidou a governadora Ana Júlia para a visita à CSA, mas não foi recebê-la nem acompanhou a excursão pela fábrica. Seus assessores disseram que ele estava em São Paulo, cumprindo um compromisso inadiável.
Depois da ação dos bombeiros para apagar a fúria do presidente, de dois encontros pessoais e de novos entendimentos, a cabeça de Roger parece ter sido preservada. Não mais por seus méritos pessoais, mas pela posição assumida pelo Bradesco, que lhe protegeu a retaguarda (reforçada pela sua condição de genro do presidente do banco). O Bradesco rechaçou o assédio de Eike Batista, que, estimulado por Lula e impulsionado por sua volúpia de jogador, ofereceu R$ 9 bilhões para se tornar dono dos 21% do Bradesco na Valepar, o consórcio que, por sua vez, tem 53% do capital votante da Vale. E fez suas gestões políticas junto aos fundos de previdência de empresas estatais, liderados pela Previ, do Banco do Brasil, o principal acionista individual (com os demais parceiros públicos, incluindo o BNDES, soma 62% da Valepar).
Ainda levará tempo para se ter acesso a todas as movimentações de bastidores que mantiveram Agnelli no comando da Vale e afastaram do cargo (ao menos por ora) tanto Eike Batista quanto Sérgio Rosa, o presidente da Previ, o mais afinado de todos com o PT. Mas certamente as coisas não voltaram às mesmas posições de antes na cúpula da maior corporação privada do Brasil, a dona da maior província mineral do mundo. Isto significará que, por bem ou por mal, por critérios predominantemente técnicos ou políticos, o vale do Tocantins-Araguaia começou a desabrochar para a sua vocação de novo vale do Rhur, o núcleo industrial siderúrgico da Alemanha, saindo da fase da mineração para a da industrialização?
Uma resposta satisfatória ainda dependerá do enredo dos próximos capítulos dessa dramática novela. Convém acompanhá-los com a máxima atenção.
Assinar:
Postagens (Atom)

